Voce era filho dele. Parceiro dela. Pai dele. Melhor amigo dela. E em cada um desses relacionamentos, uma versao de voce existia que foi moldada pela presenca deles, pelo jeito que te enxergavam, pelo papel que voce desempenhava na vida deles.
Quando eles morrem, essas versoes de voce ficam orfas. O filho que nunca mais sera filho deles da maneira que era. O parceiro que agora e algo mais dificil de nomear. O pai que ainda e pai, mas de forma diferente, sem eles aqui. Parte da sua identidade foi dissolvida pela ausencia deles, e reconstruir um senso de si e uma das tarefas menos discutidas e mais significativas do luto.
Isso nao e egoismo. Lamentar a perda da sua propria identidade junto com a perda da pessoa nao e fazer da morte deles algo sobre voce. E ser honesto sobre o alcance completo do que foi tirado. Eles nao eram apenas eles mesmos — tambem eram parte da estrutura de quem voce e. Ambas as perdas sao reais.
A disrupcao de identidade no luto pode parecer com: nao saber como responder perguntas simples sobre sua vida. Sentir-se desconectado das coisas e pessoas que costumavam parecer certas. Ter dificuldade com um senso de proposito ou direcao que antes parecia claro. Algumas pessoas descrevem sentir que nao sao ninguem, ou que estao atuando um papel numa peca sem saber bem quem e o personagem.
A reconstrucao leva tempo e nao e um processo linear. Parte do trabalho de identidade acontece atraves da conexao — estar com pessoas que conheciam a pessoa que morreu e que podem refletir de volta quem voce era com ela. Parte acontece ao continuar praticas e atividades que faziam parte de quem voce era antes. Parte envolve a construcao lenta e incerta de algo novo.
Voce nao sera quem era antes dessa perda. Essa pessoa existia num mundo onde essa pessoa estava viva. Mas a nova versao de voce — a que esta se montando no rescaldo do luto — nao e uma versao diminuida. E uma continuacao. Construida com os mesmos materiais essenciais, reorganizada em torno de uma nova realidade. E ainda e, inconfundivelmente, voce.