Voce tinha saido para tomar um cafe. Tinha ido para casa dormir. Ficou preso no transito. As enfermeiras disseram que estava tranquilo e que voce deveria descansar um pouco, e voce acreditou. E ele morreu enquanto voce nao estava la.
A culpa disso — a sensacao de que voce deveria ter estado la, de que falhou com ele no momento mais importante, de que de alguma forma a morte dele foi mais dificil ou solitaria porque voce estava ausente — pode ser profunda e persistente. E uma das experiencias mais comuns e menos faladas no luto.
Eis o que quero que voce ouca: voce nao falhou com ele.
Nao ha evidencia de que pessoas que estao morrendo tenham consciencia, de qualquer forma significativa, de se uma pessoa especifica esta ou nao no quarto. O que sabemos sobre a consciencia no fim da vida sugere que a percepcao se esvai gradualmente, e que a presenca ou ausencia de qualquer pessoa especifica no momento final nao e o que define a experiencia de morrer.
Ha tambem um padrao estranho mas frequentemente relatado: pessoas morrem nos poucos momentos em que seus entes queridos saem. Alguns profissionais de cuidados paliativos que viram isso muitas vezes acreditam que algumas pessoas escolhem assim — que morrer pode ser mais facil quando as pessoas que mais te amam nao estao assistindo, porque segurar firme por elas e seu proprio tipo de trabalho. Isso nao e ciencia estabelecida. Mas e uma forma humana de pensar sobre isso.
O amor que voce deu ao longo dos meses e anos da doenca dele, a presenca que voce trouxe a todas as consultas e conversas dificeis e dias comuns — isso e o relacionamento. Isso e o que ele carregou consigo. Nao o momento final.
Se voce nao estava la, lamente essa perda tambem — a perda do adeus que voce imaginava. Esse luto e real. Mas tente deixar a culpa ir embora, porque ela nao esta te servindo e nao esta honrando a memoria dele. O que o honra e tudo que veio antes. E isso foi suficiente.