Existe uma cadeira que costumava ser a cadeira deles. Um lado da cama. Um lugar na mesa. Uma voz que costumava preencher a sala. Um numero de telefone ainda salvo nos seus contatos que voce nao consegue se obrigar a apagar.
O luto tem uma textura fisica. Ele vive na geometria especifica da ausencia — as formas como o espaco ao seu redor foi reorganizado pelo fato de que eles nao estao mais nele. O silencio na casa. A primeira xicara de cafe feita para um quando voce sempre fazia duas. O som da porta nao abrindo no horario em que costumava abrir.
Esse e um dos aspectos mais dificeis e desorientadores do luto apos o cancer: a vida comum que voces compartilhavam continua, mas sem a pessoa que a tornava comum. As rotinas que os continham agora contem a ausencia deles. E as vezes a ausencia parece mais presente do que uma pessoa jamais pareceu.
De a si mesmo permissao para notar essas coisas sem tentar imediatamente consertar ou preencher. A cadeira vazia nao precisa ser movida ainda. O contato nao precisa ser apagado. O lado da cama nao precisa ser ocupado. Voce tomara decisoes sobre essas coisas quando estiver pronto, e nem um momento antes. O luto nao e um projeto de organizacao domestica.
Algumas pessoas acham reconfortante manter pequenos rituais que incluem a pessoa que morreu. Ainda fazer duas xicaras de cafe, mesmo que uma fique intocada. Ainda colocar um lugar na mesa do jantar em familia no aniversario deles. Falar com eles como se pudessem ouvir, porque num certo nivel — no nivel do que precisamos — eles podem. Esses nao sao sinais de que voce esta "preso" no luto. Sao sinais de que o amor continua.
E com o tempo — nao em nenhum cronograma particular, nao porque alguem te diz que deveria acontecer — o silencio comecara a mudar. Nao vai deixar de estar la. Mas voce pode comecar a carrega-lo diferentemente, a organizar sua vida ao redor dele em vez de contra ele, a descobrir que o espaco deixado pela ausencia deles abriu lugar para algo — nao um substituto, nunca um substituto, mas algo que continua honrando a vida que compartilharam.